Tupi or not tupi that is the question
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os antidepressivos vão parar de funcionar

Quarta-feira, Agosto 13, 2008
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Quarta-feira, Outubro 17, 2007
Ela abria e fechava aquele grande livro. Insinuavámos. Eu lhe mostrava a estória de uma menina que esperava um trem, e naquele momento, eu esperava, ao cais do porto - que imagem mais surrada - não, eu esperava... aos pés de mim, na frente de um temporal que se ameaça, esperava sobrevoando, esperava numa escadaria, num café qualquer. Eu esperava aquela mulher. Ela também, imaginem, esperava a mulher que seria. A mulher que saltaria para fora de seus dezoito anos. Dos meus-seus-vossos-nossos arre... esperávamos Júlio, esperávamos. Seríamos felinos, como hoje esperamos algum apartamento.

- Como tornei-me esta fábula de mim mesma, querida?

eu hoje lhe pergunto, tirando sementes de maçã da mochila, desdobrando folhas, segredando-lhe depois de um sobressalto noturno: acho que me apaixonei pelo meu psicanalista.
Fróid explica, que piada mais previsível, que imagem mais surrada, como uma ferrovia, como o arquétipo dos nossos artistas. Mas o problema, querida, a grande injúria, a grande irreverência é que você é nenhum personagem, que nos criamos a nós mesmas. Quem pariu Mateus que o embale. Agora arque com estas coisas que virão a ser a própria vida, sem jogo de palavras, ainda que por causa delas.

[arranje outra piada que não essa: eu não tinha dezoito anos]


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Domingo, Setembro 02, 2007
Estávamos no outro apartamento e ele tentava achar o horário de algo numa revista. Ele e minha mãe discutiam; meu pai se dizia fracassado. Meu irmão achava graça e ria. Eu ia à cozinha, eram seis horas, cinco e meia. Estávamos atrasados. Meu irmão sabia a qual filme nós quatro iríamos. Dizia que eu precisava comer algo. Eu chorava na cozinha, ouvindo meu pai falar. Chorava com algum descontrole e alívio. Meu irmão e minha mãe me olhavam. Minha mãe dizia que eu tinha que ter algum controle psicológico diante daquela situação. Eu perguntava por quê. Por quê? Eu não posso acobertar isso. [Não poderia jogar cal em cima do impacto que aquilo – ver meu pai se dizendo fracassado – me causava.]
Anotação mental: teria sido esse choro que não pude dar tantas vezes?

Havia uma fruta podre na geladeira de casa. Dela cresciam pêlos e – eu brincava com meu irmão – um grande nariz e olhos. Nascia alguma coisa da fruta podre na geladeira de casa.

Meu pai parecia uma presença cotidiana. Naquela espécie de restaurante, casa de amigos, eu me dava conta de que fazia tempo que não o via. E pensava: onde ele estava internado esse tempo todo? Por que eu não fui visitá-lo? Sentia tanta saudade, e vontade de ficar olhando e que ele me olhasse. Que pudéssemos sorrir um para o outro.
Ele conversava com meu irmão. Contou que só tomava cerveja. Que nunca iam vê-lo tomando uma latinha inteira daquela bebida alcoólica de tomate. Que um dia tomou e atolou o carro ali, perto do Brás. Deu a entender que ali teve muitos amores. Eu, que nunca soube se meu pai amou alguém antes ou além de minha mãe. “Ali arrasei muitos corações.” Meu pai era homem vivido.

Eu estava defronte dele na mesa. Sorria, muito entregue àquilo que estava vivendo, e de repente, via que ele tinha os olhos em mim. Ele me Amava. Que deleite, que lembrança. Como isso me salva: meu pai me Amou.

O moço que vendia algo no quiosque dava informações. Um casal se aproximava dele e perguntava se estava longe de tal lugar. Pelo modo como perguntavam, olhando sempre à frente, parecia que era um lugar próximo, talvez a cem, duzentos metros; como estivessem na rua certa – era uma rua aberta, de barro – e não achassem o número. O moço do quiosque dizia: Pra ali? Leva um dia, um dia e meio pra vocês chegarem. Ele zombava. Eu cheguei perto e semicerrei os olhos, apontando: Pra chegar ali – era uma barraca do lado, a alguns passos – vê ali? Onde tem aquele telhado cinza? – o céu se confundia – demoro quanto tempo?
O moço me ria, zombeteiro e íntimo.

Corte para a próxima cena.
Meu pai e minha mãe estão sentados em uma cama próximos de mim e de meu irmão, que estamos em poltronas à frente. Minha avó – que não era minha avó, mas uma mistura esquisita de minha mãe e minha memória – está como que ao lado deles.
“Olha só que louco, eles tentando se tocar”, parece que foi meu irmão quem disse ou a voz veio de cima, de dentro. Meu pai tinha gesso nas mãos até o fim do antebraço e minha mãe tinha as mãos enfaixadas com gaze. Ele tocava seu rosto. Era aflitivo e bonito, era triste ver aquele encontro. Eles se desejavam tanto – não eram meus pais, mas eram. Minha avó falava, “O André precisa dormir” e se levantava, tentando apartar, como se aquela cena fosse violenta pra ela. Mas eles não ouviam e tentavam se abraçar, tentavam deitar. Minha mãe tirava o sutiã. Minha avó separava-os. Minha mãe – que definitivamente não era minha mãe, mas uma mulher com uns vinte e poucos anos, os cabelos compridos e negros, os seios à mostra – caía no chão e eu pensava que ela era minha avó e era velha e poderia se machucar. Meu pai estava sentado, rindo, com a mão sobre o peito e eu percebia que ele estava com o tórax melado de alguma pomada. Ele tinha o peito liso. Parecia-se com outro homem que conheço. Ele dizia: Deixa que eu converso com ela – que era minha avó. “A gente pode ir pra outro lugar, a gente tem a cidade inteira, não é?”. Eu quase dizia: Vó, imagina há quanto tempo eles não se vêem? E pensava em oferecer meu quarto.


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Sexta-feira, Agosto 17, 2007
Das Imagens Reincidentes

Marina era o tipo de mulher que não se assombrava com as coisas. Caso sua mobília começasse a pegar fogo, dependendo do dia e de sua disposição, ela poderia fechar os olhos e tornar a dormir ou levantar à procura de um balde com água. Calmamente.

Quando o telefone tocava, ela se erguia, às vezes depois do quinto toque. Se algum homem que ela julgava atraente a notava, Marina devolvia um olhar debulhado, perscrutador, sem pressa. Ela imprimia às coisas algo que era cotidiano, mas também excepcional.

Raramente se desestabilizava; e não é que fosse apática, que as coisas não a afetassem.
(Marina certa vez viu uma senhora ser atropelada na Grande Avenida e trancou-se em um quarto durante cinco dias.)

Ela ainda era aquilo que poderíamos chamar uma-mulher-de-verdade. Vivia à cata de besouros azuis, tinha saias envelhecidas, às vezes usava sombra nos olhos. Os cabelos davam-lhe um aspecto esquisitíssimo. Marina tinha muitas memórias e uma infância presa à algibeira. Às vezes acordava e vestia uma camiseta cinza; ia ao parque do engenho, perdia horas olhando o velho lago que já apodrecia. Voltava junto com os pássaros. Cantava.
Um dia acordou, a casa inteiramente vazia. Ficou procurando o filho. Gritou Pedro por todos os cômodos e pela janela. Pedro debaixo dos lençóis, junto às arvorezinhas, debaixo da cruz, Pedro no santuário, não o encontrou nas galerias, dentro dos espelhos. Pensou em ir à rodoviária, tarde da noite, bebeu dois copos de rum e dormiu dentro de si, soluçando um pouco. Quando amanheceu, não lembrava de quanto dormira nem de que havia buscado. Marina nunca teria filhos.


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Quinta-feira, Agosto 16, 2007
- eu nunca tive tempo de cantar.

diz minha avó que parece ter passado a vida muito ocupada com a idéia da morte, sem ter de fato enfrentado o esfacelamento da vida. parece mesmo que ela nunca teve tempo de viver, sempre preocupada com as doenças imaginárias. é horrível pra mim fazer esse juízo de valor, mas é sincero, ainda que perverso. porque de fato me afeta, me bota medo. ando menos tolerante com as conversas de sala-de-estar, com as fotos de família. parece que todo mundo vive a passar panos, forjando imagens, dourando pílula o tempo inteiro. e isso que por ora chamo "minha sinceridade" parece cada vez mais escabroso e a verdade é que eu não tenho a intenção de chocar ninguém. eu queria mesmo era dançar, esquecida das idéias, do peso. meu Amor pelas pessoas permanece tão vivo, mas sempre tão dentro de mim.
eu não quero me arrogar.


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Terça-feira, Julho 03, 2007
A primeira vez que vi Rubens notei que seus cabelos estavam mais brancos. Eu tinha certeza que ele havia envelhecido muito nos cinco últimos anos. É uma coisa que se nota. Seu aspecto não era de todo lamentável, apesar do pulôver com triângulos azuis e das sandálias com meias escuras. Havia cavidades debaixo de seus olhos e uma melancolia impregnada. Eu sabia que Rubens havia envelhecido muito. Preferi não comentar, afinal, não nos conhecíamos. Caso houvéssemos conseguido alguma intimidade, minhas manias pequeno-burguesas talvez fossem mais determinantes e eu preferisse a polidez. Quem sabe mesmo a hipocrisia. Sim, talvez eu lhe dissesse que estava bonito e corado. Podemos ser assim, tão terríveis? Porque ele sabia que havia perdido peso e um pouco da vida. Os vinte anos que um dia lhe pertenciam, hoje envelheciam à beira das docas, dançando em Viena com as mulatas de Di. “Quantas mulheres amamos, quantas marias perdi. A quantas disseste yees, a quantas eu disse oui.” Rubens sabia, eu estava certo. Como quando mentimos aos convalescentes, dizendo que as coisas vão bem, basta um pouco de repouso e sopa de legumes, “você precisa controlar os excessos, evitar o cigarro, as noites mal-dormidas” – eles sabem que já não há mais nada a fazer e nós insistimos, Deus, sem convicção. Assim também talvez eu dissesse a Rubens que ele parecia melhor e que a maturidade, enfim, se nos pesa nos ombros e se nosso desempenho já não tem sido o mesmo, existem compensações. Já exaustos das ilusões, sabemos escolher melhor.

Francamente, Rubens, como perdeste o viço. Eu nada disso diria; mas talvez um ricto de espanto se desprendesse de meus lábios ou olhos.
Lembro-me de quando eu o vi apoiando-se na filha mais moça, escorava-se, mal conseguindo manter-se de pé. E tudo fora tão rápido.


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Terça-feira, Junho 12, 2007
a dor da gente não sai no jornal

Como eu deixava que tempo rodasse e continuava impune. Como num sábado ensolarado, acordar tarde, sentar no colchão e procurar pêlos com a pinça. Cutucando cravos, horas olhando o teto, vendo o bispo falar na tevê, ouvindo com desatenção minha avó contando da fila de espera, da consulta, da gravidade de seu estado de saúde. Como as coisas pareciam não ter peso e eu fumava já sem perceber que acendia outro cigarro. Já não lavava as mãos nem ligava pro corrimento escuro, as roupas jogadas, a toalha cheia de sangue. Descia as escadas pra comer pão, abrir a porta, andar duas quadras. O moleque me pede dinheiro e não sinto nada. Paira o demônio do meio-dia. Minhas dores se esgueiram, roubo um halls no mercado, planejando parricídio. A cabeça do boi pendurada no açougue, penso em liberdade. Um menino se masturba debaixo do monumento, uma senhora anota o número da confeitaria, alguém desiste de se matar.


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Terça-feira, Junho 05, 2007
Meu Canto Desesperado
Meu bem guardado segredo

Não é verdade, mãe, que não sei lidar com coisas práticas. Meu café é bom, é forte. E você que já conheceu a europa deve saber que mesmo depois de um da vinci, café fraco estraga o dia de qualquer um. Eu que fui mais pra outros lados, percebo que nestas terras cordiais se oferecem compotas de fruta, cedem a cama pra dormir no chão, mas não acertam o ponto. Quando eu virar gente grande e tiver despesas, vejo bem o que faço, dou um jeito, mas não quero mudar de marca. São essas coisas que garantem minha personalidade.

As noites têm terminado assim, perco apostas e um pouco de mim - a lucidez, entende? -, mas sempre um isqueiro a mais no bolso. Eles mudam de cor, é incrível, se multiplicam como os cronópios nos meus sonhos. Mas o maço vazio torna inútil tanto fogo. Carrego esses totens que nos lembram modernos. A calça jeans desbotada e uma ideologia de bolso. Quem dá mais? Quem dá mais? De weber a mcluhan. Eu pago bem. O manifesto comunista em pockett book, estrelas, mais uma dose de pinga.
Você vê que tenho lapsos de memória e talvez essa seja só mais uma tentativa de me proteger. Esse modo de nos destruirmos, esse desespero, não seria talvez querer preservar alguma coisa?

Pra conseguir dizer algo - eu aprendi - temos de nos esquecer que não estamos inaugurando nada - nem linguagem nem humanidade. O sexo não foi inventado pelos modernos, só a cafeteira e a Campbell Soup, e eu já disse que o meu café é o que me salva? Sei bem lidar com coisas práticas, mas ainda não aprendi a lidar com os homens. E o pior é que minha mãe não vai entender que homens são esses que levo pra dentro de mim e de casa.

Encontrei uma menina linda, inteligentíssima que cheirava muito por medo de virar acadêmica e não conseguir mais conversar sobre futebol no bar. Mas ela nunca soube conversar de futebol no bar, estava sempre cheirada.

Ouço vozes ainda desse país que queríamos ser, para onde caminhamos, se tão tropegamente? Onde mesmo queríamos chegar? Onde foi que nos perdemos? Decadência e ruína - é assim que nasce o ocidente, de duas mortes trajado.

Quarta-feira vi uma mulher em trapos vendendo cachecol. Ela escrevia sem voltar os olhos à avenida sequer uma vez. Que percebe esta negra da cidade que se engalfinha? Pensei que poderia estar escrevendo versos, o mais certo é que pedisse dinheiro a um irmão que-deu-certo-na-vida, mas eu sei que ela copiava salmos. Ontem me bateu uma agonia quando vi o moleque de moletom colorido e gel puxando pra dentro de uma agência de empregos um vendedor de drops, lambendo merda no seu ouvido. E os dois só se encontraram porque precisavam ouvir o mesmo cântico de morte.
Sem vãs esperanças, sem mais vãs utopias. Está ficando tarde.


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Sábado, Junho 02, 2007
há quanto tempo sair de casa não vinha se tornando um evento - eu ia andando pela rua. pergunto o preço do tomate e amarro os cadarços pensando em comprar vinho, o açougueiro me dá um palpite. eu, que parei de jogar no bicho, agora sonho com loucos. e contra o mau olhado eu perdi o meu patuá.
de quantos homens você se desfez? de menina mesmo, tu ainda tens os braços - sempre abertos - e esse jeito de buscar beleza.

alguma coisa havia se perdido. em que momento? os trilhos foram pavimentados e um dia, peguei carona com um homem que me dizia do caminho de terra, enquanto punha a mão na minha perna esquerda.

- ali havia um santo
que morreu atropelado
- ali um gato que perdeu a dona

e me lembro das minhas roupas sujas de sangue, dos lençóis cobertos de barro e porra, da dor toda que eu sentia. Teresa, tome minhas mãos, me ensina a dormir com uma mulher-de-verdade, a espantar besouros e ler sobre o campo de trigo enquanto o almoço esfria. você se deita em meu colo, sonhando com buenos aires, respira fundo e diz meu-amor. o amor não tem demorado, não tem partido e eu não tenho esperado. as andorinhas é que mudam, teresa e o tempo escoa quieto nos pratos sobre a pia, o tempo evapora sobre a mesa, o tempo entre os meus olhos e os teus, entre eu e você, suspenso nessa eternidade que criei por dentro.
... enquanto o último trem não chega, ele me segura pelos olhos, levanta os braços e diz que vai me ensinar a voar. os olhos de petróleo e medo, a saber quanto tempo falta pra cessarem os trilhos, consultam os astros e as horas. no seu relógio de pulso vem o tempo hirto, coberto de garoa e sal. a menina que nunca pulou corda se despede do homem que vendia doces de tabuleiro. nunca vi o quebra-nozes no teatro municipal e agora tenho o centro da cidade iluminado, cheiro de mijo e pólvora, cheiro de gás.
se eu perdesse a perna nesta avenida, agora que corro ignorando o trânsito, a moto buzina e eu penso, Sim, ele me segura pelos olhos e me vai ensinar a voar.
existem rios metafísicos e ele os atravessa, sem saber. não sabe que desvarios me tem arrancado, o moleque toma meu rádio de pilhas e dobra correndo a escadaria. penso com tristeza e indiferença que talvez vire pó.
agora me habita nos sonhos e me despe com violência, me abraça, me cobre. sou tua última invenção, a tua última pedra. ainda não temos chorado, ele respira mais forte, passando a língua nos meus dezembros e escadarias, a última flor de maio, meu sopro. decaio.
enquanto a cidade se precipita, adormeço. vim tão coberta de orvalho, agora a noite se faz mais doce enquanto o velho vomita sobre o balcão e pede outra dose. desmaio.
você sabe, meu bem... você sabe que agora nos tornamos demasiado velhos para esconder poeira, para sentir febre, para pedir desculpas.


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Quinta-feira, Maio 24, 2007
Sorte do dia no orkut:
[Querida, não misture literatices com suas memórias sentimentais
Assim não se chega a lugar nenhum]

esta mulher a me falar de inferno, fogo e abismos

"Mas não vivemos assim, lacerando-nos docemente? Não, não vivemos assim (...)"
Cortázar

Eu senti tédio quando vi aqueles olhos que um dia me perscrutaram pelo avesso e que hoje, calmamente anunciavam a minha morte, encomendando-a.
Querida, quando tiveres de partir em definitivo, molhe meus olhos, derrube azeite quente sobre mim pra que eu saiba desaprender a estrada. A mortalha e os homens, a busca.
Tu partistes tão estouvada naquela manhã, abotoando a calça, partindo um pedaço de pão, colocando-o na boca - com raiva - e consultando as horas. Depois mais não soube, das dores. Tive tanto medo, pequena, teus olhos de pretume e lascívia, te vi mergulhada num rito de despedida. Eu imaginava tua imagem se apagando sem medidas, partindo-se em pedaços pequenos, desfazendo algo que outrora havia tido uma cor sem passado. Meu Amor não é brando. Nunca foi, vê? Sê meu pedido, vem. Cabe aqui, no espaço exato, entre tanta ausência.

Por enquanto dorme.
Tu és minha mais noite - imensa.
Quando vieres, acompanha meus homens.
O formidável enterro
pra quando fores buscar aqueles que se calaram
aqueles que já não temem.

Meu querido, minha espera

Descobri que havia trauma em tua boca - aberta

quando fazíamos amor de tarde e por fim tu gritavas
entre tantos pedidos e carícias
tua boca aberta
fazíamos amor como à beira de um tempo que não era esse
que agora vigora
tua boca - esfera míngua
teus pêlos e sinceridade
teus olhos
teu rosto iluminado perto
e rodopiavas já não em dança
em transe
que me molha em boca à flor de meus anos
o tempo que vivo será este quando: enquanto
eu não queria te dizer.

Porque eu sei, querida, eu sei

que o modo como você me conhece e ama e o modo como eu te conheço e amo não se explica nem se contradiz. não se leciona em cambridge nem no estado. e pense bem, não seria desejável ao bem estar que a humanidade que se amasse desse jeito.
e é por isso que tenho discussões imaginárias com você a caminho da faculdade. sua voz dizendo que sou mimada e que sei bem quais armas usar e esse jogo de conquista é tão fácil, meu bem, que logo me cansa.
um dia ana me perguntou se eu usava as pessoas como aos cigarros, e aquela pergunta ficou na minha cabeça. ana é assim como eu, apaixonada e volátil.
agora me canso dessas mercadorias. mudo os canais de tevê, o sol nas bancas de revista. andamos por essa vitrina, tropegamente, e as coisas passam. as crianças japonesas correm atrás de um cachorro de pelúcia, uma loira mostra os peitos falando de sua sensualidade e sutileza, um português pergunta a capital da colômbia e eu transito entre tudo isso impune.
é difícil lutar contra a apatia, não é? tantas ofertas.

"Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira."

e você me pergunta quando dei pra ele, em que quarto de motel, bebendo qual dose de que pinga ordinária e me diz - você ainda tem os olhos iluminados - que eu continuo a mesma. e eu tenho aprendido tanto.


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Palavras e Imagens

Fernanda-Irmã
Misson, O Cara
Yanesco
Ergo Sum
Cat, A Mina
Marcone
Jordani Sou Eu
Leo Caobelli
Por Baixo dos Panos
Meio Termo
Fernanda
Calmaria e Fúria
Landin
Vitor Freire
Filipe
Coletivo
Cotovelares

Tom e Vinicius - por Biagio Di Carlo
Lugares Bacanudos

Centro de Mídia Independente
Silvio Mieli
Sabotagem
Na Orelha
O Dilúvio
Memória Viva
Vozes do Brasil
Som Barato