Tupi or not tupi that is the question
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os antidepressivos vão parar de funcionar

Terça-feira, Junho 12, 2007
a dor da gente não sai no jornal

Como eu deixava que tempo rodasse e continuava impune. Como num sábado ensolarado, acordar tarde, sentar no colchão e procurar pêlos com a pinça. Cutucando cravos, horas olhando o teto, vendo o bispo falar na tevê, ouvindo com desatenção minha avó contando da fila de espera, da consulta, da gravidade de seu estado de saúde. Como as coisas pareciam não ter peso e eu fumava já sem perceber que acendia outro cigarro. Já não lavava as mãos nem ligava pro corrimento escuro, as roupas jogadas, a toalha cheia de sangue. Descia as escadas pra comer pão, abrir a porta, andar duas quadras. O moleque me pede dinheiro e não sinto nada. Paira o demônio do meio-dia. Minhas dores se esgueiram, roubo um halls no mercado, planejando parricídio. A cabeça do boi pendurada no açougue, penso em liberdade. Um menino se masturba debaixo do monumento, uma senhora anota o número da confeitaria, alguém desiste de se matar.


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Terça-feira, Junho 05, 2007
Meu Canto Desesperado
Meu bem guardado segredo

Não é verdade, mãe, que não sei lidar com coisas práticas. Meu café é bom, é forte. E você que já conheceu a europa deve saber que mesmo depois de um da vinci, café fraco estraga o dia de qualquer um. Eu que fui mais pra outros lados, percebo que nestas terras cordiais se oferecem compotas de fruta, cedem a cama pra dormir no chão, mas não acertam o ponto. Quando eu virar gente grande e tiver despesas, vejo bem o que faço, dou um jeito, mas não quero mudar de marca. São essas coisas que garantem minha personalidade.

As noites têm terminado assim, perco apostas e um pouco de mim - a lucidez, entende? -, mas sempre um isqueiro a mais no bolso. Eles mudam de cor, é incrível, se multiplicam como os cronópios nos meus sonhos. Mas o maço vazio torna inútil tanto fogo. Carrego esses totens que nos lembram modernos. A calça jeans desbotada e uma ideologia de bolso. Quem dá mais? Quem dá mais? De weber a mcluhan. Eu pago bem. O manifesto comunista em pockett book, estrelas, mais uma dose de pinga.
Você vê que tenho lapsos de memória e talvez essa seja só mais uma tentativa de me proteger. Esse modo de nos destruirmos, esse desespero, não seria talvez querer preservar alguma coisa?

Pra conseguir dizer algo - eu aprendi - temos de nos esquecer que não estamos inaugurando nada - nem linguagem nem humanidade. O sexo não foi inventado pelos modernos, só a cafeteira e a Campbell Soup, e eu já disse que o meu café é o que me salva? Sei bem lidar com coisas práticas, mas ainda não aprendi a lidar com os homens. E o pior é que minha mãe não vai entender que homens são esses que levo pra dentro de mim e de casa.

Encontrei uma menina linda, inteligentíssima que cheirava muito por medo de virar acadêmica e não conseguir mais conversar sobre futebol no bar. Mas ela nunca soube conversar de futebol no bar, estava sempre cheirada.

Ouço vozes ainda desse país que queríamos ser, para onde caminhamos, se tão tropegamente? Onde mesmo queríamos chegar? Onde foi que nos perdemos? Decadência e ruína - é assim que nasce o ocidente, de duas mortes trajado.

Quarta-feira vi uma mulher em trapos vendendo cachecol. Ela escrevia sem voltar os olhos à avenida sequer uma vez. Que percebe esta negra da cidade que se engalfinha? Pensei que poderia estar escrevendo versos, o mais certo é que pedisse dinheiro a um irmão que-deu-certo-na-vida, mas eu sei que ela copiava salmos. Ontem me bateu uma agonia quando vi o moleque de moletom colorido e gel puxando pra dentro de uma agência de empregos um vendedor de drops, lambendo merda no seu ouvido. E os dois só se encontraram porque precisavam ouvir o mesmo cântico de morte.
Sem vãs esperanças, sem mais vãs utopias. Está ficando tarde.


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Sábado, Junho 02, 2007
há quanto tempo sair de casa não vinha se tornando um evento - eu ia andando pela rua. pergunto o preço do tomate e amarro os cadarços pensando em comprar vinho, o açougueiro me dá um palpite. eu, que parei de jogar no bicho, agora sonho com loucos. e contra o mau olhado eu perdi o meu patuá.
de quantos homens você se desfez? de menina mesmo, tu ainda tens os braços - sempre abertos - e esse jeito de buscar beleza.

alguma coisa havia se perdido. em que momento? os trilhos foram pavimentados e um dia, peguei carona com um homem que me dizia do caminho de terra, enquanto punha a mão na minha perna esquerda.

- ali havia um santo
que morreu atropelado
- ali um gato que perdeu a dona

e me lembro das minhas roupas sujas de sangue, dos lençóis cobertos de barro e porra, da dor toda que eu sentia. Teresa, tome minhas mãos, me ensina a dormir com uma mulher-de-verdade, a espantar besouros e ler sobre o campo de trigo enquanto o almoço esfria. você se deita em meu colo, sonhando com buenos aires, respira fundo e diz meu-amor. o amor não tem demorado, não tem partido e eu não tenho esperado. as andorinhas é que mudam, teresa e o tempo escoa quieto nos pratos sobre a pia, o tempo evapora sobre a mesa, o tempo entre os meus olhos e os teus, entre eu e você, suspenso nessa eternidade que criei por dentro.
... enquanto o último trem não chega, ele me segura pelos olhos, levanta os braços e diz que vai me ensinar a voar. os olhos de petróleo e medo, a saber quanto tempo falta pra cessarem os trilhos, consultam os astros e as horas. no seu relógio de pulso vem o tempo hirto, coberto de garoa e sal. a menina que nunca pulou corda se despede do homem que vendia doces de tabuleiro. nunca vi o quebra-nozes no teatro municipal e agora tenho o centro da cidade iluminado, cheiro de mijo e pólvora, cheiro de gás.
se eu perdesse a perna nesta avenida, agora que corro ignorando o trânsito, a moto buzina e eu penso, Sim, ele me segura pelos olhos e me vai ensinar a voar.
existem rios metafísicos e ele os atravessa, sem saber. não sabe que desvarios me tem arrancado, o moleque toma meu rádio de pilhas e dobra correndo a escadaria. penso com tristeza e indiferença que talvez vire pó.
agora me habita nos sonhos e me despe com violência, me abraça, me cobre. sou tua última invenção, a tua última pedra. ainda não temos chorado, ele respira mais forte, passando a língua nos meus dezembros e escadarias, a última flor de maio, meu sopro. decaio.
enquanto a cidade se precipita, adormeço. vim tão coberta de orvalho, agora a noite se faz mais doce enquanto o velho vomita sobre o balcão e pede outra dose. desmaio.
você sabe, meu bem... você sabe que agora nos tornamos demasiado velhos para esconder poeira, para sentir febre, para pedir desculpas.


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