A primeira vez que vi Rubens notei que seus cabelos estavam mais brancos. Eu tinha certeza que ele havia envelhecido muito nos cinco últimos anos. É uma coisa que se nota. Seu aspecto não era de todo lamentável, apesar do pulôver com triângulos azuis e das sandálias com meias escuras. Havia cavidades debaixo de seus olhos e uma melancolia impregnada. Eu sabia que Rubens havia envelhecido muito. Preferi não comentar, afinal, não nos conhecíamos. Caso houvéssemos conseguido alguma intimidade, minhas manias pequeno-burguesas talvez fossem mais determinantes e eu preferisse a polidez. Quem sabe mesmo a hipocrisia. Sim, talvez eu lhe dissesse que estava bonito e corado. Podemos ser assim, tão terríveis? Porque ele sabia que havia perdido peso e um pouco da vida. Os vinte anos que um dia lhe pertenciam, hoje envelheciam à beira das docas, dançando em Viena com as mulatas de Di. “Quantas mulheres amamos, quantas marias perdi. A quantas disseste yees, a quantas eu disse oui.” Rubens sabia, eu estava certo. Como quando mentimos aos convalescentes, dizendo que as coisas vão bem, basta um pouco de repouso e sopa de legumes, “você precisa controlar os excessos, evitar o cigarro, as noites mal-dormidas” – eles sabem que já não há mais nada a fazer e nós insistimos, Deus, sem convicção. Assim também talvez eu dissesse a Rubens que ele parecia melhor e que a maturidade, enfim, se nos pesa nos ombros e se nosso desempenho já não tem sido o mesmo, existem compensações. Já exaustos das ilusões, sabemos escolher melhor. Francamente, Rubens, como perdeste o viço. Eu nada disso diria; mas talvez um ricto de espanto se desprendesse de meus lábios ou olhos. Lembro-me de quando eu o vi apoiando-se na filha mais moça, escorava-se, mal conseguindo manter-se de pé. E tudo fora tão rápido. postado por Maroca 17:24 Fala que eu te escuto: . . .