Tupi or not tupi that is the question
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os antidepressivos vão parar de funcionar

Domingo, Setembro 02, 2007
Estávamos no outro apartamento e ele tentava achar o horário de algo numa revista. Ele e minha mãe discutiam; meu pai se dizia fracassado. Meu irmão achava graça e ria. Eu ia à cozinha, eram seis horas, cinco e meia. Estávamos atrasados. Meu irmão sabia a qual filme nós quatro iríamos. Dizia que eu precisava comer algo. Eu chorava na cozinha, ouvindo meu pai falar. Chorava com algum descontrole e alívio. Meu irmão e minha mãe me olhavam. Minha mãe dizia que eu tinha que ter algum controle psicológico diante daquela situação. Eu perguntava por quê. Por quê? Eu não posso acobertar isso. [Não poderia jogar cal em cima do impacto que aquilo – ver meu pai se dizendo fracassado – me causava.]
Anotação mental: teria sido esse choro que não pude dar tantas vezes?

Havia uma fruta podre na geladeira de casa. Dela cresciam pêlos e – eu brincava com meu irmão – um grande nariz e olhos. Nascia alguma coisa da fruta podre na geladeira de casa.

Meu pai parecia uma presença cotidiana. Naquela espécie de restaurante, casa de amigos, eu me dava conta de que fazia tempo que não o via. E pensava: onde ele estava internado esse tempo todo? Por que eu não fui visitá-lo? Sentia tanta saudade, e vontade de ficar olhando e que ele me olhasse. Que pudéssemos sorrir um para o outro.
Ele conversava com meu irmão. Contou que só tomava cerveja. Que nunca iam vê-lo tomando uma latinha inteira daquela bebida alcoólica de tomate. Que um dia tomou e atolou o carro ali, perto do Brás. Deu a entender que ali teve muitos amores. Eu, que nunca soube se meu pai amou alguém antes ou além de minha mãe. “Ali arrasei muitos corações.” Meu pai era homem vivido.

Eu estava defronte dele na mesa. Sorria, muito entregue àquilo que estava vivendo, e de repente, via que ele tinha os olhos em mim. Ele me Amava. Que deleite, que lembrança. Como isso me salva: meu pai me Amou.

O moço que vendia algo no quiosque dava informações. Um casal se aproximava dele e perguntava se estava longe de tal lugar. Pelo modo como perguntavam, olhando sempre à frente, parecia que era um lugar próximo, talvez a cem, duzentos metros; como estivessem na rua certa – era uma rua aberta, de barro – e não achassem o número. O moço do quiosque dizia: Pra ali? Leva um dia, um dia e meio pra vocês chegarem. Ele zombava. Eu cheguei perto e semicerrei os olhos, apontando: Pra chegar ali – era uma barraca do lado, a alguns passos – vê ali? Onde tem aquele telhado cinza? – o céu se confundia – demoro quanto tempo?
O moço me ria, zombeteiro e íntimo.

Corte para a próxima cena.
Meu pai e minha mãe estão sentados em uma cama próximos de mim e de meu irmão, que estamos em poltronas à frente. Minha avó – que não era minha avó, mas uma mistura esquisita de minha mãe e minha memória – está como que ao lado deles.
“Olha só que louco, eles tentando se tocar”, parece que foi meu irmão quem disse ou a voz veio de cima, de dentro. Meu pai tinha gesso nas mãos até o fim do antebraço e minha mãe tinha as mãos enfaixadas com gaze. Ele tocava seu rosto. Era aflitivo e bonito, era triste ver aquele encontro. Eles se desejavam tanto – não eram meus pais, mas eram. Minha avó falava, “O André precisa dormir” e se levantava, tentando apartar, como se aquela cena fosse violenta pra ela. Mas eles não ouviam e tentavam se abraçar, tentavam deitar. Minha mãe tirava o sutiã. Minha avó separava-os. Minha mãe – que definitivamente não era minha mãe, mas uma mulher com uns vinte e poucos anos, os cabelos compridos e negros, os seios à mostra – caía no chão e eu pensava que ela era minha avó e era velha e poderia se machucar. Meu pai estava sentado, rindo, com a mão sobre o peito e eu percebia que ele estava com o tórax melado de alguma pomada. Ele tinha o peito liso. Parecia-se com outro homem que conheço. Ele dizia: Deixa que eu converso com ela – que era minha avó. “A gente pode ir pra outro lugar, a gente tem a cidade inteira, não é?”. Eu quase dizia: Vó, imagina há quanto tempo eles não se vêem? E pensava em oferecer meu quarto.


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