Ela abria e fechava aquele grande livro. Insinuavámos. Eu lhe mostrava a estória de uma menina que esperava um trem, e naquele momento, eu esperava, ao cais do porto - que imagem mais surrada - não, eu esperava... aos pés de mim, na frente de um temporal que se ameaça, esperava sobrevoando, esperava numa escadaria, num café qualquer. Eu esperava aquela mulher. Ela também, imaginem, esperava a mulher que seria. A mulher que saltaria para fora de seus dezoito anos. Dos meus-seus-vossos-nossos arre... esperávamos Júlio, esperávamos. Seríamos felinos, como hoje esperamos algum apartamento. - Como tornei-me esta fábula de mim mesma, querida? eu hoje lhe pergunto, tirando sementes de maçã da mochila, desdobrando folhas, segredando-lhe depois de um sobressalto noturno: acho que me apaixonei pelo meu psicanalista. Fróid explica, que piada mais previsível, que imagem mais surrada, como uma ferrovia, como o arquétipo dos nossos artistas. Mas o problema, querida, a grande injúria, a grande irreverência é que você é nenhum personagem, que nos criamos a nós mesmas. Quem pariu Mateus que o embale. Agora arque com estas coisas que virão a ser a própria vida, sem jogo de palavras, ainda que por causa delas. [arranje outra piada que não essa: eu não tinha dezoito anos] postado por Maroca 15:49 Fala que eu te escuto: . . .