Tupi or not tupi that is the question
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os antidepressivos vão parar de funcionar

Domingo, Fevereiro 08, 2009
Que imagem, querido, a morte do pai. Relampejou como agora este mandato. Vi a foice e a casa de muro baixo. O estranho de um lugar que já não é o seu. Existem esses que parecem bichos desgarrados - como imaginei fossem os vagabundos. Fico pensando que seres de mundo, habitantes leais da primeira margem, que pisam o chão e o chão ressoa, que maceram a terra: estes dificilmente me perceberão. Porque os modos como me posso dizer: Eu sou esta que tal e tal - dificilmente será audível. Estes que sentem terramotos com sua ancestralidade, como eu: mas em outra língua. Estes têm outra ciência, Yane. Sabem como salgar a carne para que não apodreça, são homens de farejo: chove. Sabem qual raiz mata. Brincam nome de bichos, paladares. Cacarejam. Parece que o que mais os chama é o mundo das imagens. Conversam sobre fenômenos. Fenômenos, Yane! Imagine: sabem quando vai estourar o vulcão. E vão contar como foi a espreita dos bichos. Vão contar sobre cores avultadas, sobre alucinações, mulheres que apareceram à meia estrada: nada em volta. Vão soar aos lobos: entenderão. Homens de bando, sabem o cheiro dos outros, mas não nasceram agarrados. Seus corpos trepidam. Eles trepam. Têm outro reino do meu. Diante desses, como posso dizer: Eu também sinto imensidões, isto também me alastra! Era o que ia lhe dizer. A foice e o pai. E penso estes. Que dentro de uma casa vão a do amiguinho e as lágrimas vão atrás da barra da mãe - como formiguinhas brancas. Perdi a mamãe - e muitos são já velhos nestes rituais, já caducaram, voltando ao lar das repetições. Também sei, querido, que palavras suscitam visões: palavras CRIAM irmandade, criam laço, desaparecem minha distância à sua: como o Amor... é meu sonho de criar paragens: que nos aquiesçam, bem: mas nos revolvam, nos chamem zonas insuspeitas, não havidas. Eu andava com a perseguição de uma imagem: fazer gozar através da língua. Digo tensionar limites. Não sei se através de imagens sexuais; será que não é uma convenção de associações que sejam estas imagens que nos estimulam? Por que parece natural que se enforcar seja um modo de se masturbar, Completamente? Por que não parece perverso, não parece excitante dizer isso, mas há uma forma de gozo? Será que a morte é parecida? Com que lentidão sonha um velho?

Eu sonhava com uma imagem assim. Ele, um menino sem nenhum acontecimento. Nada de espantoso no cursar do tempo. Acontecia o de sempre: haver nascido e espalhar-se um pouco. Até que. Aquilo o fez sonhar com ter sido levado à praça. Era ele e o pai: abria o jornal e tomava caldo, tudo que se sabiam. Raro tinha lhe dado a dignidade de alguma palavra. Agora bramia uma excitação que o menino nunca tinha investigado. De repente o pai tinha rosto demais. Chicoteavam o cavalo na lei do espetáculo, falavam língua de garrafas quebradas. Mas ninguém via, não? Estavam todos ladeados no circo: não pensavam. O bicho quando está para a morte cheira um canto que respeite a decisão. Este esgarçava seu existir no meio da feira, os tomates apodreciam. O menino olhava o pai, besta em transe.

Foi aquilo que o menino sonhou. Vinha da boca de um ciclope chegado ali de repente – o menino sem nenhum acontecimento teve este sonho de morte. E ansiava agora que aquele lhe fizesse sentir: mais. Grudou sua existência na esperança do homem de um-olho-só. Ele o levava a montanha e ficava gritando chamar o vento e o vento vinha mesmo, com o mar avançando os pés. Fazia chamar mulher e o menino tinha medo mulheres chegassem, Mãe soubesse. Tremia imaginando. Porque vinham mesmo, o povoado. Vinha uma nau de pretumes, gente escarrada, vinha a desesperança dos moribundos e uma língua de avesso. Vinha este sonho que não é meu: ele fazia falar. O coro relâmpago. A palavra atávico, a idéia de uma grávida. Vinha, vinha. Um ermitão e alegria de assédio, a ossatura de uma lenda, vinha a carniça e o que os bárbaros demovem. Arcada de sírios. Os imbecis, os suicidados. Era o homem e a lenda: o menino recebendo sonhos que não eram seus: aterravam em seus poros, erigiam pórticos.

Agora o menino e o ciclope. Como continuar sem as montanhas? Aquilo começava a germinar em seu cabelo, nascendo gramas. Eram os dois presença esquisita à cidade. É pederasta, acusavam as matronas. Queriam as rédeas: destruir o esquisito de dois deâmbulos. A mãe postiça tratou de afastar, falando por víboras. O ciclope veio explicar que não eram tremores de cama o que sofriam. A mulher tentou furar seu olho, mas não era ali que a história vazava.

Deu de beber ao poeta, o poeta deu de sonhar. Agora em língua reversa, engolhe-escândalos. Vomitou todo o branco.


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