Tupi or not tupi that is the question.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

“Que assim mal dividido esse mundo anda errado,
Que a terra é do homem, não é de deus nem do diabo”

Sexta-feira, Maio 30, 2003
Fui caindo, caindo e, de repente, a queda em vôo se transformou. Com as asas frágeis mas funcionais, me joguei no áspero momento das dores. Até a alegria dói, quando ecoa. Das pontes que se ergueram, dos precipícios que hesitaram, das construções que, desabadas, me lembraram que do caos se faz o grito, não sei mais o que faria sentido. Me deram cebion, grudaram esparadrapos nas minhas feridas e gaze nos meus murmúrios. Curativos. Houve até quem cantasse uma valsa e depois dissesse pra que eu dormisse, que tudo passaria. Houve quem se vestisse de branco e dançasse, velando a noite inteira minhas dores coloridas. De repente, de silêncio seco e óbvio, tingiu-se o tempo. Latidos de cachorro ao longe e o fósforo acendendo um cigarro velho e murcho. Ah, meu amado não parta, não parta de mim, Júlia levemente soprou nos meus ouvidos e do canto fez-se a cura. Acordei do meu sonho. Diz-me, esses gritos todos, essa labareda nos lençóis, esse pesadelo, esse salto, esse fim - que foi? Todos sorrindo, as estrelas anêmicas, a Lua pálida; vieram me visitar. Corre, menina, corre. Pus um lenço nos cabelos, abotoei a calça, peguei um bem-te-vi, um claro-instante ressecado e vim pro ponto de ônibus, ainda madrugada inexata. Tentei correr, pisei no espinho. Um burro bravo cruzou meu caminho. Cheguei. Disseram-me pra que te procurasse, pra que te perguntasse, vim: Que vai ser de mim, doutor?

. . .
Terça-feira, Maio 27, 2003
Esperava sempre que ela chegasse e descansasse por minutos indefinidos e intermináveis os olhos nos seus espaços, também cansados. Que ela suspendesse o tempo num gesto, tingisse de entre-cores abstratas o cortar daqueles instantes. Esperava. E era terno esperar. Às vezes, na solidão do abismo do seu quarto, entre a cama e a janela, tinha a impressão de que as horas estancavam e doía qualquer silêncio de estrela caída. E contando as horas, despedaçando o tédio, ousando o delírio das febres, se desesperava no deslize da calma, a desesperança vinha das gotas do tempo, pingando turvo, inexato, barroco, flagelado. Com uma garrafa de conhaque, não dormia nem conseguia senão o espasmo, na comtemplação da noite, esmiuçava os desertos que boiavam suspensos no teto, na Lua, nele próprio. Não queria -queria?- que aquele inferno escorrido acabasse e as águas esfriavam, o peito aquecido queimava, crispando aquela angústia. Subia pelas escadas do apartamento das horas, até tocar no rosto do desejo, até ceder e deixar que as pernas fraquejassem.


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Sexta-feira, Maio 23, 2003
O Último Poema (Manuel Bandeira)

Assim eu quereria meu último poema

Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.

Sem explicação, Paulinha, sem nenhuma explicação, mas quem condena, quem pode -diz-me- quem pode lhe condenar se teves -e deves ter tido- uma tanta paixão, do tamanho da tua doçura?
Hoje me ligaram à noite. Ironia. Esperava eu uma amiga que viria aqui, mas era outra, tão grande quanto, porém trazendo na boca uma tragicidade sem fim nem sentido. Uma amiga do meu grupo de teatro havia se matado. Primeiro, aquela sensação de abismo, gosto de sangue na boca, "mas por quê?". Existem os que precisam entender por quês. Esses subjetivos e inexplicáveis (desistam!). Sim, por quê? Cada um sabe a dor que traz no peito e o quanto pesa, não é? Cada um sabe, também, se as flores que enxergam são tão lindas quanto um mistério cálido e negro que as atrai, irremediavelmente. Dama-da-noite. Esse cheiro.

Paula, Paula, Paula
Pequena e linda Paula
Já te chamaram até de Sol
E diziam que, enquanto andava,
o ballet, como uma segunda natureza,
Continuava colado à tua pele e gestos
Todos eles brilhados
E ao redor, todos nós, Luas
Astros que são iluminados por um outro
de luz própria.

Tentávamos te alertar:
"o chão é de cimento, de madeira
de tudo que não de plumas"
Mas não adiantava:
distraída,
quando via-se no espelho que éramos nós
Já trazia a dança enredada nos passos
e ria
mentia que era assim porque há mais de dez anos
dançava
tinha as sapatilhas pregadas aos pés
escondia que era um...
um desses seres que não conhecemos
e que, por ignorância e necessidade de catalogá-los,
chamamos:
ANJOS
não dizia que na verdade precisava decolar
Nós, como éramos tolos, Deus
achávamos belo teu vôo

Pequena e linda Paula
Hoje sua risada ecoa em mim
Os textos no teatro demolido recitam-se sozinhos e loucos
Você pegou a parte mais lírica e triste:
Lorca
Seca, murcha e linda
Enforcava homens
Pequena morena
O corpo esculpido
A fala calma
Já te chamaram até de paz,
Paula
Tanto acreditaste que foste de encontro à branca
paz eterna
Rouca
Estética
Febril

Paula, Paula...

Deixo nossa lembrança na Benedito Calixto
Eu, já bêbada, chorava um poema encantado
"Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos, que são doces"
Depois junto com Marília entoei Bandeira
e você aproximou muito teu rosto do meu
e declamou Shakespeare,
Paula,
Shakespeare

Trágico como você, morena linda

Ria muito infantilmente

e voou.



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Quinta-feira, Maio 22, 2003
Com a chave na mão, quer abrir a porta...

O salto do tamanco da mulata. Lá do fim da rua, ouço o som do salto do tamanco da mulata ecoando na Lua. Ela dobra a esquina e pede na porta do bar uma dose de aguardente. Com uma intuição e um gesto molhado de mulher, faz as horas rodarem e o tempo anoitecer. Calmamente. Reluz. E diz poesias, ri, balança os cabelos e pede outro trago. Os vultos chupados e atraídos pela sua presença (machos, fêmeas, crianças, lobos) dizem que pagam, que "pode deixar na minha conta". Uns acendem cigarros de cravo e encostam-se na mesa de madeira que lhes escora o corpo do tombo, pretensamente sedutores mas nunca mais que seduzidos; felinos, instintivos, com seus olhares triangulares e verdes, com lascívia lhes correndo nas veias. Ela sangra. Venda os olhos das ciganas, joga-se na dança dos humanos, bebe do licor dos deuses, eles têm os mesmo pesadelos, além dos sonhos. Mulata. Mulata dos gestos azuis, das roupas coloridas, da poesia vazando da boca, dos sentidos, mulata dona do pôr-da-lua, do rodar dos céus, dos tempos, dos abalos sísmicos. Muito além do canto da sereia, da lenda do boto, dos mitos gregos. Ela tem a chave na mão, mas gira-a no ar, como um bêbado que a trinta metros da porta de casa, encontra uma fechadura imaginária. Caramba, mulher! Encontra logo a bendita porta, dá esse passo e livra o mundo desses imbecis que não entendem nem a Arte nem nada.

"Eu canto, grito, corro o rio e nunca chego a ti."


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Quarta-feira, Maio 21, 2003
Meninos! Hoje vi um filme tão tão tão lindo!!!! Já viram "O Silêncio", de Mohsen Makhmalbaf? Vou copiar a biografiazinha dele.

"Nasceu em 1957 em um bairro pobre de Teerã e hoje é um dos mais conhecidos e admirados cineastas iranianos, ao lado de Abbas Kiarostami. Makhmalbaf é também um dos mais censurados e combatidos cineastas do seu país. Autodidata, largou a escola aos 15 anos e engajou-se em lutas políticas, contra o regime do Xá. Ficou cinco anos preso e só escapou da morte por ser menor de idade. O seu trabalho foi introduzido pelo Mostra Internacional de Cinema com filmes como 'O Ambulante' (86), 'O Ciclista' (89), 'Salve o Cinema' (95) e 'Um Instante de Inocência' (96)."

Mas é mesmo lindo, estou ainda com restos de êxtase no meu corpo...



Hum... Acho que estou voltando nas minhas fases de cinefilia. Não ando conseguindo escrever, nem ficar na frente do micro.
Férias de mim. Perdoam? Ou dão graças? :)


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Segunda-feira, Maio 19, 2003
Um trecho lindo do "Evocação do Recife", Bandeira.


(Manuel Bandeira / Chico / Tom / Vinícius)

A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros
Vinha da boca do povo na língua errada do povo
Língua certa do povo
Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil
Ao passo que nós
O que fazemos
É macaquear
A sintaxe lusíada

pronominais Oswald de Andrade

Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro


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Domingo, Maio 18, 2003
VERDE Guilherme Zarvos



Se eu morrer amanhã que se salve a poesia ou que me salve a poesia e não estarei morto amanhã. Minha voz e as letras -como é preciso o encaixe das palavras- que dão sentido e, na busca, o encontro do que é estético ético do que é sintonia. Não vaguei neste mundo besta à toa, se bem que é bom vadiar. Vadiei. Se na volta da mesa toalha de cânhamo e vaso deixei vagar pensamentos e cheiro e sabor: como gosto de você. E procurei ajudar outros vadios, em precisão maior que a minha, pois há retorno na camaradagem. Sou de um grupo de semente vândala, de esparramante coração. Assumido vagabundo. Sinto falta de você. E lá se vão anos e gente de todas as vidas. Vi venderem a peso de ouro copeques sem valor. Fui passado para trás com um sorriso vago. Era vantagem. Vendo o sorriso vago de quem vendia. Não sou ví-tima. E cada disso com sentido: eu amo ser humano que se aventura... contudo vem agora canseira do vago, ventrílocos, vociferação. Já sinto sono no meio da volta. Este teatro eu vi ontem. E não que valha apenas o versado. Mas vai chegando a velhice e devagar cedo ao vigor do vento. Continuo amando o que é verde... ver-te vou indo ver.


. . .
Hoje vocês terão de me agüentar. Acordei vasculhando poesia e poetas por aqui. Achei muita coisa linda.
A única pena é que a forma não se preserva. Fica só um verso debaixo do outro.

ESPERA Bianca Ramoneda

Não existe maior solidão
Nem distância,
Nem espera tão longa

Como a de um poema que não vem.
A caneta como um gato
À espreita
Para avançar no papel.
Somente um silêncio.
Prolongado e interminável silêncio
Sem paz.
O filho nasce quando quer.

MAL-ACOMPANHADA? Bianca Ramoneda

um pensamento varou a noite do meu quarto:
e se todo mundo fosse estudar filosofia?
tudo seria melhor
mas eu continuaria só.

tudo de bom pra todo mundo Michel Melamed


(Chacal, Michel Melamed, Pedro Rocha -em pé; Viviane Mosé, Guilherme Zarvos, Gisela Campos, Guilherme Levi)

pra quem não sabe desenhar gente é uma bola
com dois pontos é um traço assim
e outro assim
e outro assim

queria me dissolver na água
porque mais que tudo
mais que você amor de minha vida
que papai mamãe e Deus
e sexo e dinheiro e chocolate
eu amo a água
as coisas podem acontecer naturalmente
mas, bem,
piada não é exatamente a piada em si, ela em si,
mas quem conta:
tem gente que conta determinada piada e não tem
a menor graça
tem gente que conta a mesma piada e não consegue
nem terminar
sabe como é... acontece muito de me dizerem tchau e eu
ouvir te amo meio italianado
(tchau tchau
tchau tchaum tchaum teaum teaumo teaumo te aumo
te amu te amo)
eu aproveito a oportunidade
para renovar
meus protestos de elevada estima e consideração
atenciosamente
existem coisas que acontecem muito
outras só funcionariam todo o dia
mas todo o santo dia mais todo o santo
isto é muito difícil
exemplo:
é impossível 01 (hum) lapso cocacólico
quando é que alguém diria "... aquele refrigerante... como
é mesmo... aquele preto... ai meu Deus... parecido com a
pepsi..."?
nunca! seria imperdoável
você pode esquecer a luz acesa,
a idade do seu pai, o que era mesmo
tudo bem é aceitável mas o lapso cocacólico está em extinção
existem coisas que não podem ser magoadas
tem gente que a gente
conhece há um tempão e nada
e tem gente que a gente mal conheceu
e sente como se fosse um tempão
você sabe não é?
o meu negócio é rotular,
destravar no interior
não existem coincidências
existem, sim, N formas de se dizer a mesma coisa
de se dizer a mesma coisa existem formas N
formas de se dizer existem N a mesma coisa
mesma se a coisa N dizer formas de existem
tudo é muito previsível
dia seguinte à eleição?
foto na capa do jornal com candidato sorrindo em cabine
morte do Roberto Carlos?
manchetes tipo 'O TRONO ESTÁ VAGO'
ou 'O REI ESTÁ MORTO, VIVA O REI'
pós-liberação do jogo?
o surgimento de uma 'Nova Las Vegas'
deixe-me em paz, eu nasci ontem demais
mas não é por isso que ainda não escrevi
a coisa mais bonita que escrevi
até hoje, não é por isso que comunico
com pesar o falecimento da inesquecível
nem é por isso que gosto
de pessoas gentis e pés
(especialmente os de dedos
quase redondos)
instituto médico é legal
dentista é ruim
tem motorzim motorzim motorzim
que faz bzzzzzzziiiiii
(o problema
não é ter vontade de fazer tantas coisas
e sempre perceber que não se tem o equilíbrio necessário
o problema é estar sempre atrás
ou adiante de si mesmo
e é lógico: os aniversários)
agora, amigo a gente vê
quem é nos momentos difíceis
eu tenho muitos colegas,
um montão de conhecidos
mas amigo? amigo mesmo?
nunca aconteceu de me perguntarem 'oquê?' e eu
entender 'ok'
(...)


. . .
Sábado, Maio 17, 2003
A Lua hoje está imperdoavelmente pálida, linda e inteira. Até me assustou. Escrever sobre ela como quem fotografa? Que bonito seria.


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Um texto que me fez chorar há umas duas semanas.

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Mal-dormida, não podia senão mal-acordar, olhei meus todos livros e discos à revelia, abertos e tortos, descansando em páginas escolhidas, em poemas com o embrião da angústia, dormindo no chão, espalhados na cama. Furacão nenhum. Só mais uma dessas noites insones, regadas à cafeína, conversas delirantes (todas elas pouco adormecíveis, nada embaláveis) e aquilo a que chamo híper-excitação-mental. Mal-dia-raiado, destroços de mim partidos e de tudo entendo nada. Fiapos de consciência. Literatura? Poesia? Fi-lo-so-fia?- silabeio prateada num murmúrio mal-articulado, Que é senão sombra? Sentido? Qual? Duvidei com o corpo todo e a mente ainda cansada, exausta e mal-humorada, pois de inquietações todas, resposta alguma deu o ar das graças. Resposta alguma. "Quarenta anos e nenhum problema/ resolvido, sequer colocado." Eu, com um pouco menos nas costas, embora as olheiras fundas e o estado manco, mequetrefe assim, carregue outra impressão. Perguntas. Questões. Pra quê diabos tanta pulsação alarmando o dia, tingindo de sangue inteiro o fluxo certo de idéias certas. Preconcebidas. Menos angustiante aceitar. Aceitar. Calma. Pacífica. Otária. Feliz, quem sabe? Feliz, como sou. Sem saber que é... felicidade. Espaços de alucinação, suspendo a respiração, três vezes consecutivas, levanto, cinco polichinelos, duas cambalhotas, postada frente ao espelho, miro meu rosto absurdo e outro, dou alguns tapas, pingo colírio nos olhos áridos e jogo quatro ovos no liquidificador, enquanto leio Shakespeare. Inútil e vã filosofia. Abro a janela e contemplo pessoas (ratos?) correndo, correndo, atrás do tempo, da metafísica do tempo?, do caos do tempo. Tempo nenhum. Como roedores, gafanhotos, como Kafka sonambulando embriagado e rodeado de grades. Fróidis plica tudo. A mim? Com zigue-zagues pensamentais? Com ácidos lisérgicos nos vãos das veias? Talvez a mim.
Angustiada, rodei vezes incessantes a sala, abria um livro, lia uma frase, punha um disco, ligava o rádio, dizia uma palavra torta, consertava um ato mal-planejado, pegava as flores caídas, colava o vaso imperfeito, matava o Bilac que, no sofá, descrevia o chinês da casa. Nenhum. Te acalma. Não me acalmo. Escrevo.


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Enquanto minhas mãos, trôpegas, não conseguem rascunhar palavra, uns trechos de uma entrevista com o Abujamra.



"O Nelson Rodrigues disse uma coisa fantástica pros jovens: 'Envelheçam, envelheçam...' Deixa eles fazerem o que quiserem, sei lá o que vai acontecer com eles. Ah, juventude, eu não beijei todas as bocas! Eu tenho 70 anos, vou lá entender os jovens! Não existe ensino, existe aprendizado. Se o jovem quiser aprender, ele vai atrás e ninguém segura. Ele vai atrás de um Brecht, de um Shakespeare. Nada pior para um artista que o gosto artístico de um professor."

"O Brasil é um enigma, não é? Quem que sabe o que é o Brasil? É uma democracia, e pode falar o que quiser. Pode falar como são asquerosos, filhos da puta esses políticos. Na democracia, você pode falar o que quiser. A democracia é fashion, é tecnológica, é maravilhosa, o mundo ocidental tem uma democracia fantástica, o mundo oriental está tentando uma democracia. Então, você pode dizer como são cínicos e caras-de-pau esses políticos. Na realidade, temos que falar para os nossos governantes que o Brasil não é a Bosnia. Eles comeram a comida do povo, roubaram a música do povo. Esse país musical é maravilhoso. Nós tivemos sorte de não ter o desastre de uma guerra civil. Acho que é porque Deus ainda não nos compreendeu. Todo mundo sabe que todo governo é filho da puta!"

"Prefiro a polícia como censura porque a polícia é burra e tem medo de nós! Já os intelectuais de direita são perigosos. Deixa as pessoas fazerem o que quiserem, ver até onde o homem é capaz de chegar. Deixa fazer e vamos ver o que acontece. Os Estados Unidos têm milhões de habitantes e os americanos vão mal por causa da televisão? Sei lá, eu não quero saber deles, mas que eles vão bem, vão. Pra cá, eles mandam tênis Nike falso... Como estão matando mais por um Nike que por amor."

"Qualquer artista tem que ter uma preocupação poética. A poesia é uma coisa muito rara, não é uma coisa fácil. As pessoas pensam e escrevem poesia? Não é assim. Pensar para escrever poesia, tem que repensar antes de pensar. João Cabral de Melo Neto escrevia um verso, botava na gaveta, seis meses depois ele tirava o verso para ver se estava bom dentro da poesia que ele estava fazendo. Poesia é uma coisa muito difícil e buscar a poética é sempre maravilhoso. Todo mundo tem que buscar a poesia. Quanto mais poético, mais verdadeiro."


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"Vai ter uma festa
que eu vou dançar
Até o sapato pedir pra parar
Aí eu paro, tiro o sapato
E danço o resto da vida."

Chacal


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Quarta-feira, Maio 14, 2003
Quando nasci, um anjo torto
Desses que vivem na sombra
Disse: Vai, Mari! Ser gauche na vida.

E eu fui.


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Grande Espera Anoitecida Num Dia Rosa-Azul

"Se quiser eu piro, e imagino ele de capa de gabardine, chapéu molhado, barba de dois dias, cigarro no canto da boca, bem noir. Mas isso é filme, ele não. Ele é de um jeito que ainda não sei, porque nem vi."
Caio Fernando Abreu

Se fôssemos nós, se isso fosse a gente. Não teriam motivos certos nem causas definidas. O barulho todo que atrapalhava minha concentração, pessoas falando e eu queria chorar. Não tinha concentração pra chorar. Pensava em você assim, que viria calma e inteira pra mim que era toda espera e silêncio. Era por você que eu resistia e inventava modos de ficar em pé, esperava o próximo tapa, que viesse, que viessem socos na boca do estômago, que viessem calças compridas pra eu tropeçar, que viessem poças incríveis e sem fundo pra eu afundar; eu resistiria, porque você, apesar de não tão perto, existia. E eu cantaria. Andaria naquelas avenidas repletas de gente que não me merecia, me olhavam com seus olhos acusadores e curiosos, enquanto chovia e eu me despia, ventava e eu esperava que do outro lado da rua estivesse você, com seus braços quentes e seus desejos acendidos, você que me levaria pro seu mundo, riria tanto, mas preservaria alguma seriedade em algum canto indefinido dos olhos pra não desvalidar a bronca "Está louca? Quer pegar uma gripe?". Eu andava perdida e choraria meus litros de medo, meus quilos de desânimo mas você me levaria pra um outro quarto, estaria viva e inteira, com uma garrafa de vinho no bolso do casaco comprido pra me mostrar que a vida fazia, sim, todo sentido e que a beleza que eu tinha não seria mesmo enxergada por aquelas pessoas que amanheciam com os olhos vidrados na televisão. Você entendia minha beleza, talvez fosse a única e eu me aceitaria quando suas mãos de alcance infinito me tocassem. Haveria sangrar de feridas, explosão de infernos, mas era disso que precisávamos pra que o nosso jeito de rir fosse respeitado. Nunca mais, meu amor, abaixaríamos a cabeça pra essa gente certinha e morta, nunca mais choraríamos escondidas se nos chamassem de monstros, se rissem do nosso modo de ficar parada, da nossa dança solta nas pernas, devolveríamos todo esse asco àquela gente inanimada. Eu cantaria pra você, desafinada e feliz, seria eu. Te mostraria meus segredos, recitaria aquele poema inteiro no teu ouvido e só saberia chorar dessa dor anônima e calma. Tiraríamos as roupas, os medos, os tédios, os traumas, todos os traumas colados à pele, grudados aos ossos, se fossem precisos aqueles palavrões gritados, vomitaríamos todo nosso ódio na cidade luminosa e mesquinha, que não sabia mais sorrir. Eu não fugiria de você, nunca, correria aos teus braços e dias e sóis. E te ensinaria tudo que não sei, tudo que não contei. Descobriríamos nossa cura. Desaprenderíamos os pudores que nos injetaram, tão seqüeladas, com medo de suspender o braço porque tudo é errado e feio pra eles. Reinventaríamos a vida, tornando-a possível, tornando-nos possíveis. Ainda que imperfeita e manca e não tão sábia nem tão lírica nem tão nítida, tão pouco bonita e nada infeliz, inteira sua, eu, se coubéssemos nesses tempos, nessa cama, nesse pranto. Tudo isso, a tudo isso sobrevivo, a essa chuva, a esse barco, a esse parto, aberrante, transmutada, colérica, do outro lado da rua, do outro lado da espera, do outro lado do mundo, do muro, das horas, do abismo. Estou.


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Segunda-feira, Maio 12, 2003
Agora, aqui, você tem um minuto e vinte segundos pra falar tudo o que acha da vida.

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Domingo, Maio 11, 2003
"Você tem de vir comigo em meu caminho
E talvez o meu caminho seja triste pra você."
Vinícius de Moraes

Ela tinha os olhos vivamente verdes, mas, ao contrário do que diz a mídia, não eram eles tampouco o misto de fascínio e desejo que causavam, deixando nas pessoas um começo de primavera na boca, suficientes para fazer da mulher alguém... - como se diz?- feliz. Entre os dois pólos, tendia mais pro oposto, quieta e finda em si mesma: triste.
Contextualizando: sempre vivera em Moema, bairro da zona sul de São Paulo, de uma classe-mérdia burguesa, medíocre. Sem mais redundâncias. Morava com os dois filhos, já bem grandinhos: uma moça de vinte e quatro anos, um rapaz de vinte e três: Tatiana e Pedro. Do marido - ou melhor, do ex-marido - sabia-se pouco; que desde que fora embora numa estrada longa, deixara nos olhos de Vera essa noite, no sorriso-torto, esse amarelo, nos dias, esse frio. Mal cumprimentava os vizinhos, os porteiros, um aceno de cabeça, um olhar, um tartamudeio que escapava dos lábios pequenos e frouxos, tingidos com um batom tímido que lhe realçava o desconforto, a sensação de não caber no mundo. Ninguém, obviamente, lhe dizia isso. Mas Veramente sentia.
Qual tristeza suburbana, qual amargor, qual resto de mentira, qual canalhice bêbada, com um baralho nas mãos, deixava seu mundo espremido no apartamento?
Com eles, morava também um poodle. Velho e cego. Como tudo naquela casa, como um mancar de pernas, um defeito congênito, atávico; a família definhava no seio murcho da burguesia. Chorar não cabia. Ausência de desespero. Não beirava o patético nem o trágico. Não era cômico. Definidos, eram tristes e definidos. Uma família discreta, que pagava IPTU, impostos, que não tinha dívidas, sempre com o dinheiro contado, com os bolsos vazios, a despensa vazia, o peito vazio. Um grito que sangrasse? Nem a desgraça. Nem o absurdo. Nem um clown de Shakespeare dançando no tapete. Nem um beijo que trouxesse veneno na essência. Loucura? Nem nada. Um charme Vera tinha: os olhos, a cabeça baixa e ruiva, um resto de pudor no corpo que só havia experimentado o sexo pra cumprir tabela. Uma angústia. Nem trancada. Uma angústia livre-livríssima que nascia entre o pescoço e o estômago, mas ecoava em toda sua extensão, como uma mosca gorda que se debate estupidamente contra o vidro, na ilusão ridícula, vertiginosa e inconsciente de entrar nalgum lugar. (Terá uma mosca inconsciente? Terá outra que desvende os labirintos do id?) Uma angústia amorfa, como nuvem negra, sem contorno ou definição. Se o marido - ou melhor, ex-marido - não a deixasse, que seria? Brilhariam como seixos na estrada seus pequenos olhos-estrelares?
Sorriu. Um dia brevemente sorriu pra mim no elevador. E eu disse: "Vera, me leva?". Pena. Ela não ouviu.


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Quinta-feira, Maio 08, 2003
Tragédia em Mi Maior (Desespero Sustenido)

Não. Não há escapismos, mentiras, senhas, nada que me tire disso que agora sinto. E quero sentir. Por que essa apologia à "felicidade" -ainda que fingida- a qualquer custo? Por que esse otimismo falso e barato? Não tenho boas perspectivas hoje e trago os ombros curvos e as marcas do meu tempo. Conversando com a Fê hoje, permiti a tristeza, a desilusão, ainda que sendo ela uma das pessoas que mais me transmite alegria e vida. Deixei. Deixei que as lágrimas caíssem e que minhas conclusões à cerca da humanidade e do Brasil fossem pateticamente apocalípticas. Não, não quero ver as pegadinhas do João Kléber. Você não entende que meu riso é outro? Nem quero ver a indústria do pânico de Cidades Alertas & cia pra chafurdar nesse mar de desesperança. Convivo diariamente com muita gente anestesiada, congelada. Tenho minha dose cavalar de realidade logo ao levantar da cama. Vejo tanta guerra e desrespeito e tédio, apatia, imbecilidade. Muitas vezes olho-os e sorrio, me tratam todos eles bem, julgam-me meio-maluca, "aquela menina que ri tanto, tão esquisita". Pois hoje reservo-me ao direito de não ter de ter nos olhos o brilho de sempre, não ter na traquéia, por estourar, a risada de sempre, não ter na boca a esperança do recomeço, numa retórica tantas vezes pouco convincente, numa eloqüência atropelada. Hoje desacredito de tudo. Olho aos outros e me dói alguma comiseração, a alguns me aperta uma paixão impossível. Amo tanto, tenho tido hemorragias e ouço meus próprios berros me acordarem na noite quieta, ela própria adormecida. Um latido que atravessa a rua e meu grito tingindo de desespero esse pesadelo.
Será, pai, que a humanidade está se acabando? Fura, rosa, fura minha calçada, meu tédio, meus dedos e espalha esse inútil sangue por toda a película da vida. Não pode mais a mediocridade entre os homens.


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A Flor e a Náusea / Drummond

Preso à minha classe e a alguma roupas,
vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?

Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.

Em vão me tento explicar, os muros estão surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.

Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo o que perdem.

Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteros do mal.

Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.

Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.


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Era como se fosse uma quinta-feita chuvosa, cuspindo no rosto da gente um vento frio e inteiro. Mas era domingo. Uma tarde bordada de descaso e certo começo de sol. Dentro da alma, no entanto, devia ser aquela quinta perdida, guardada num resto qualquer de memória. Estávamos sozinhos naquela esquina que era a tarde, eu dentro da tarde dele, imensamente quinta. Num domingo. Não queria pedaços de passado, queria ser inteira hoje, para ele que era inteiro tarde, tão tarde aquela tarde, ainda que chuvosa, eu queria estar dentro do dia que era ele.
Sorri, faminta por algo tão abstrato e lindo que era era aquele homem, tão distantemente meu, tão delicadamente só. Como uma faísca de segundo no olhar dO Outro. Uma dança. Esquecida de que havia infernos para os que ousavam o desejo, eu sorri e ele só pôde entender. Me deu um beijo aceso nos ombros, como um vaga-lume existindo. Só não sabia que era quinta. Só não descobrira que era tarde. Só não entendera que estava só e meu, parado naquela esquina vazia e fria. Era o inferno. Ainda que chuvoso; ainda que inverno. Era o meu inverso: o Inferno. (O Outro?)


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Quarta-feira, Maio 07, 2003
Um textinho do Ferreira Gullar:

Resmunguei aqui contra ilustres figuras que vivem atropelando a língua na televisão e nos jornais. Não se trata de caturrice de gramático que não suporta o menor desrespeito à "norma culta". Que brasileiro analfabeto ou semi-analfabeto diga "nós vai", tudo bem. Mas que jornalistas, escritores, deputados e até ministros estropiem a língua, não se justifica. Quem pertence à faixa "culta" da sociedade deve seguir a "norma culta" do falar e do escrever. Mesmo porque nós, poetas, temos que defender as regras lingüísticas para podermos violá-las criativamente. Se a língua vira a casa-da-mãe-joana, o ofício do poeta perde o sentido...


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E porque é preciso que haja pontes no nosso desejo, lanço mão de mil esperas, de mil esferas. Houve caminhos e verões esfacelados, despedacei desertos de mim e ouço essa solidão ecoando, como uma voz negra e tanta, me ralentando os sentidos, vagarosos. Brasa da palavra; não é brasa, é, já, cinza. Tenho um fim de almas em mim, um recomeço que já sei existente -não pulsante, ainda- em alguma sombra ou curva do meu corpo. Alguma melodia -ouves? Bem ao longe........ uma flauta? Um sax? Um suspiro. Rosas molhadas, outonas nos meus espaços todos antes primaverís. Quando as andorinhas sobrevoarem meu céu da boca, anunciando um verão trancado, encoberto por meus medos e -inúteis- escudos, quem sabe eu sorria e me voem das luas tantos esquecidos amores. São tempos de cores em meus olhos? Talvez as que se camuflem, amendoadas, confundidas com meu castanho. Talvez. Não as vejo. São turvas, são tuas, tuas cores perdidas em mim. E quando fostes embora, te deixei no começo da escadaria que se esgueirava até onde meus olhos não alcançavam. Tu não tens coragem? - pergunto-me, encarando-me no reflexo das águas inventadas de um Mississipi que passa debaixo da minha cama. Recuastes logo antes do salto na lã vermelha da vida, não queres mais arriscar a calma (certo resto de alma) pelo torpor? Pois vá! Aceita tua neve e verdades, encara os contornos que as coisas tomaram, que tu tomastes e que, tempos passados, eram outros. Esses cristais se partindo... Doem, eu sei, sinto, ouço esses estalidos de vidro quebrando, entoando cantigas de choro nas minhas noites. Ando me perdendo nos labirintos internos dessa busca, tropeçando com minhas pernas, sem que ninguém precise passar as próprias antes do meu passo. Às vezes fujo de mim, corro, com desespero e afoita, ajoelho diante do meu próprio pecado, mendigando migalhas desse pão. Haja. Haja espera, histeria, mudez, nudez. Haja línguas ensandecidas nessas bocas de miséria. Haja cobras com cem braços que me envolvem num bote -ainda mais- definitivo.

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Terça-feira, Maio 06, 2003
Hum. Sono. E insônia. Daí fico com os pensamentos assim, embriagadamente fluentes, tropeçando em um em outro. Depois de umas semanas intensas e inteiras de escrita compulsiva, de deixar de fazer as coisas de tanto pensamento que me imobilizava as ações -assim, estava eu indo... suponhamos... à sala, mas vinha uma idéia (que no estalo parecia genial, no desenvolvimento, medíocre) e eu voltava à folha. Ficaram as flores sem regar, os pais sem pedidos atendidos, o almoço esfriando à mesa. Enfim. Depois dessas ininterrupções de poesia, de palavras -umas vinham entrelaçadas às outras, cachos de uvas na parreira, todas de mãos dadas, dançando nos meus sonhos, costurando minhas realidades tão insensatas- me vem esse... bloqueio? Não sei. Parece que não são tempos de idéias, sabe? Nem das geniais, nem das medíocres. Os fiapos, espectros das que sobraram, surgem truncados, faltando um pedaço, que nem a lua minguando, que nem o meu (coração) nos teus braços. No entanto, se me faltam os versos, minha intuição anda aguçada. Muito aguçada. Não são lá coisas muito grandes, são coisinhas gostosas que me saltam à boca e aos sentidos pouco antes de se darem. Bonito, sabe? E nessa fase em que queremos fazer mosaicos prosaicos, queremos entender as coisas de um jeito lírico, como aquela síndrome do o-mundo-conspira-contra-mim às avessas, acabo entendendo -sim, porque quero- que se sinto as palavras na fala das pessoas antes das mesmas serem ditas é porque minha ligação com essa bruxa língua é definitiva, tão entranhada em mim, tão amarrada nos meus cabelos, começos e soluções, tão aterrada nos meus universos, tão deliciosamente composição do meu destino e espírito.

Meu bem, não chores,
Hoje tem filme de Carlito.

E companhia da Fefa.


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Segunda-feira, Maio 05, 2003
Depois da tormenta. Que vem depois da tormenta?
Tenho pensado muitas coisas. Tudo confuso, nebuloso. Fico falando, tentando organizar, discernir e entendo muito pouco de tudo isso. Mas gosto bastante. "Não se preocupe em entender; viver ultrapassa todo sentido". Pois é, Clarice.
Tenho sentido como nos escondemos de nós mesmos, como precisamos de escapismos, como no fundo queremos que nossos problemas sejam resolvidos por outros, como nos pesa a liberdade. Isso deve ser um assimilamento -tardio?- das coisas que li do Sartre, mas me lembrou agora um poema do Leminski:

"No fundo, no fundo,
Bem lá no fundo,
A gente gostaria
De ver nossos problemas
Resolvidos por decreto

A partir desta data,
Aquela mágoa sem remédio
é considerada nula
E sobre ela - silêncio perpétuo"

É isso. Tantas vezes esperamos que o tempo, o outro, deus, o cosmos, pílulas, as circunstâncias ou qual outro diabo curem nossas feridas ou resolvam por nós o que só nós poderíamos resolver. Fingimos que, não optando, não estamos também escolhendo; que, não assumindo compromissos, não estamos nos envolvendo. Tantas vezes escolhemos fingir que estamos fora da vida e que tudo nos é alheio, que a política, a situação do meio-ambiente, os relacionamentos pessoais não dependem de nós, não queremos enxergar quão responsáveis e intimamente ligados estamos com o que nos acontece. Preferimos crer que não somos senão seres que vão até onde o vento leva: deixamos que nossas pernas se atrofiem, que nossos movimentos se cauterizem, fingimo-nos estáticos; inventamos que SOMOS pra não assumirmos o que há de desconfortável na nossa condição de "móbile solto no furacão", de rascunho, projeto interminado itinerante.
Às vezes nos acomodamos numa relação porque ela representa a certeza de uma companhia nos fins-de-semana, porque nos satisfaz as carências da carne, pelo colo certo e esquecemos que existe a possibilidade de algo mais profundo. Ou mesmo talvez não exista. Talvez, quem sabe, o amor ou tudo isso que chamam amor não passe de uma ilusão, como escreveu Jabor: "(...) E o que é esse tal de amor? Uma bobagem inventada pelos provençais do século XIII e traduzido pelos irmãos Campos de São Paulo... você acha que sempre houve amor? Não houve não... não tinha amor na Grécia... em Creta... na Babilônia não tinha amor (...) tudo isso é uma bobagem que o cinema americano usou pra faturar! (...) reacionarismo! Amor é pra vender jeans na televisão..."
Enfim... Sei que existem relacionamentos-além porque já os experimentei. Se efêmeros, fugidios, se feneceram logo que o Sol nasceu? Tantas vezes. Mas existe, sim, algo capaz de transformar a ótica, e transformar a ótica é transformar... tudo, enfim. Tenho acreditado tanto nisso. Tenho visto tanto como, sim, a vida só é possível se reinventada! Como criamos a nossa realidade, não somos obrigamos a tragar o que querem que seja o certo. E não me falem que isso não importa, não faz falta às pessoas. Não fosse, drogas e alteradores outros de consciência não seriam tão comercializados e poderosos. Quando estamos sob efeito de drogas, acreditamos tanto no medo que sentimos, no prazer, na nossa verdade. Quando sonhamos, choramos tão sinceramente quando alguém querido "morre", rimos com tanta certeza das coisas que nos fazem graça. Por que, então, somos tão céticos e acreditamos tão piamente nas verdades que os outros nos vendem? Não tô dizendo que as pessoas deveriam viver como que alucinadas, sem ponderar atitudes, sem olhar antes de atravessar a rua. Mas que devemos trazer isso das nossas experiências. Os nossos limites físicos são outros ou nós pelos menos cremos que são.


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Domingo, Maio 04, 2003
Queria escrever. Vim aqui pra isso, ora. E fiquei encarando o monitor me encarar. Tem graça?

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Sábado, Maio 03, 2003
Não. Não adianta sorrir, espelho meu, meu riso é seu...
Pois é. Tá me apertando o peito essa coisa qualquer, amorfa. Se dói? Um pouquinho. Obrigada por perguntar. Já alivia. É, não é ruim essa dor. Dessas doces, quase-submissas, que te fazem sorrir ao caixa do supermercado depois dele passar suas duas garrafas de vinho. Sem pressa. E você sozinha. É, não tô a fim de companhia. Desse tipo de companhia, pelo menos. Do resto sinto falta, sim, Geandra.
Não é só vontade. Tô chorando desde que comecei a ler um texto da
Lucilene Machado. Parei nessa parte: "Entretanto, alguma coisa dele ficou nela. Uma espécie de sabedoria estranha capaz de intuir coisas impossíveis. E alguma coisa dela ficou nele, acho que um feitiço inocente de mulher febril despida de qualquer malícia." Não agüentei continuar. Empacando num texto que comecei ontem.
Sonhei com um monte de gente. Resto de memória apegada em mim, grudada na pele.
Sentir, sentir. Quanto vale sentir tanto? Um dia o Paulo falou pra mim, na última vez que nos vimos: "Da próxima vez, pede pra nascer no corpo de alguém que não sinta tanto." Pausa. Enfrento seus olhos, sua cabeça deitada no meu colo. Sorri. Continua. "Cê vai ver que merda que é." Ele não pode saber, ora. Sente tanto quanto eu, disso sei.
Memória, filme voltando mesmo. Nostalgia? Nenhuma. Qualquer tempo de retrospectiva, só. Sabe quando o futuro se agiganta tanto, parece que as coisas vão mudar dentro em breve? Daí olhamos assim, um pouquinho pra trás, remexendo nos armários das lembranças, nas caixas de escritos antigos. Mas se você me convidar pra sair à noite talvez eu aceite. E talvez tenha de me carregar pra cama, também. Se acha que agüenta tanto sonho, medo e carne pesando em mim, que arrisque. Diz que homem gosta de provar hombridade levantando peso.
Me lembrei de uma amiga. Catarina. Vai morar em Minas. Eta cidade pra esconder meus amores. No meio de tantas montanhas, ficam se esquivando, fugindo de mim. De repente pensei: "E se eu morasse no Rio?" Tenho a impressão de que ainda vou conhecer a fundo essa cidade. Intuição, só. Daí quem sabe ame a luz na Baía de Guanabara, adore as luzes na noite dela ou, por fim, acabe por odiá-la. O amor é cego.
Tudo tudo tão incerto.
Hoje vai vir gente aqui. Na mesa, o cenário: meu pai meio doente, minha mãe meio preocupada, minha irmã e meu cunhado rindo à toa pelo meu sobrinho que nasce em novembro. Ter de fazer social e aprender a rir vezenquando. Gosto deles, sim, ora. Mas hoje... Sabe vontade de se deixar? Mergulhar na biografia do Tom, ficar debaixo do cobertor e pensar, quem sabe, que é pra mim o telefone que toca. Tanta gente com quem gostaria de falar. Apesar da vontade de me deixar. Não fosse caro o interurbano pra Uberlândia. Sete Lagoas... Quer vir pra cá? Eu pago passagem e o preço da hospedagem é sua presença. Minha flor.
Vontade de ouvir Nana Caymmi.

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Sérgio Castro
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... Flávio encara Marco, seu colega que fora acusado de furto no trabalho...